Inteligência artificial e solidão: o que a busca por companhia nos chatbots revela sobre as relações
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Dados inéditos revelam que a busca por companhia na inteligência artificial é maior entre pessoas que se sentem sozinhas. Pesquisa também mostra que jovens estão entre os principais usuários dessas ferramentas.
Você já pensou em conversar com uma inteligência artificial sobre algo que está sentindo? Ou recorrer a um chatbot quando precisa desabafar, pedir um conselho ou simplesmente ter com quem conversar?
Com a popularização de ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude, a inteligência artificial passou a fazer parte do cotidiano. Mas além de ajudar nos estudos e no trabalho, essas tecnologias começam a ocupar um espaço mais íntimo na vida das pessoas: o das relações e do apoio emocional.
É o que revela a quinta edição do Panorama da Saúde Mental, lançada em 15 de outubro pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel. A pesquisa, que ouviu 4.601 pessoas em todo o Brasil, investigou pela primeira vez como os brasileiros utilizam a inteligência artificial em situações relacionadas à saúde mental e de que maneira esse comportamento se associa à solidão.
Os resultados mostram que 8,8% dos brasileiros já recorreram à inteligência artificial para se sentir menos sozinhos ou ter algum tipo de interação. Entre as pessoas que relataram solidão frequente, essa proporção é significativamente maior.
Quanto maior a solidão, maior a busca por companhia na IA
A solidão é um dos principais achados do Panorama da Saúde Mental 2026. Segundo o levantamento, 36,5% dos brasileiros relataram ter se sentido sozinhos ao menos uma vez nas duas semanas anteriores à pesquisa.
Esse sentimento apresentou a associação mais expressiva com indicadores mais baixos de saúde mental entre os hábitos e comportamentos investigados. Para avaliar essas diferenças, o Panorama utiliza o Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM), calculado a partir de instrumentos validados internacionalmente. O indicador varia de zero a mil pontos: quanto maior a pontuação, melhores os resultados nas dimensões de confiança, vitalidade e foco. Em 2026, a média nacional foi de 671,1 pontos.
Entre as pessoas que relataram solidão três vezes ou mais nas duas semanas anteriores à pesquisa, o ICASM foi de 383 pontos, contra 782 pontos entre aquelas que não se sentiram sozinhas.
Quando esses resultados são cruzados com o uso de inteligência artificial, surge uma relação importante: quanto mais frequente a experiência de solidão, maior a proporção de pessoas que recorrem à IA em busca de companhia.
Entre aqueles que não relataram solidão, apenas 1,8% utilizaram inteligência artificial para se sentir acompanhados. O percentual sobe para 8,5% entre quem se sentiu sozinho uma ou duas vezes e chega a 32,1% entre aqueles que relataram solidão três vezes ou mais.
Uma tendência semelhante aparece no uso da chamada “terapia por chatbot”: a proporção passa de 4,8% entre pessoas que não relataram solidão para 25,3% entre aquelas que vivenciaram esse sentimento com maior frequência.
Esses dados não significam que a inteligência artificial provoque solidão, nem que seu uso necessariamente agrave a saúde mental. O que a pesquisa identifica é uma associação entre essas experiências, levantando questões sobre as necessidades emocionais que podem estar por trás da procura por essas ferramentas.
Por que as pessoas estão recorrendo à IA para falar sobre sentimentos?
A pesquisa mostra que a inteligência artificial já faz parte da realidade de grande parcela da população brasileira. Ao todo, 86,4% dos entrevistados afirmaram já ter utilizado alguma ferramenta de IA, enquanto 51,9% recorreram a geradores de texto ou conversa.
Quando o assunto é saúde mental, os usos também são diversos: 15% já recorreram à inteligência artificial em momentos de crise, 9,1% afirmaram ter utilizado a chamada “terapia por chatbot” e 8,8% buscaram a tecnologia para se sentir menos sozinhos ou ter interação.
Entre as razões apontadas para preferir a inteligência artificial a um terapeuta humano estão o menor custo, a disponibilidade 24 horas por dia e a menor sensação de julgamento.
Essas motivações ajudam a compreender parte do apelo dessas ferramentas. Afinal, um chatbot pode estar disponível a qualquer momento, responder rapidamente e oferecer uma interação sem algumas das exigências presentes nas relações humanas.
Ao mesmo tempo, os dados levantam uma reflexão importante: o que leva alguém a buscar em uma tecnologia a escuta, a disponibilidade ou o acolhimento que não encontra em outros espaços?
A preferência pela IA por questões de custo, disponibilidade e menor sensação de julgamento também apareceu associada a indicadores mais baixos de saúde mental, sugerindo a importância de olhar para possíveis barreiras de acesso ao cuidado. Embora a IA possa oferecer informações e interações, a chamada “terapia por chatbot” não equivale à psicoterapia realizada por profissionais qualificados.
Jovens estão na linha de frente dessa transformação
A relação entre inteligência artificial e saúde mental ganha ainda mais relevância quando observamos os diferentes grupos etários. Entre os brasileiros de 16 a 24 anos, 81,3% já utilizaram geradores de texto ou conversa, e 71,4% afirmaram utilizar ferramentas de inteligência artificial com frequência.
Os jovens também demonstram uma percepção diferente sobre os riscos dessa tecnologia. Apenas 25,6% das pessoas nessa faixa etária manifestam preocupação com o avanço da IA, enquanto entre aquelas com 60 anos ou mais o percentual chega a 62,3%.
Esses resultados reforçam a importância de promover o letramento digital, ampliar o conhecimento sobre os limites dessas ferramentas e compreender como as novas gerações estão incorporando a inteligência artificial às suas formas de interação e busca por apoio.
Relações humanas continuam sendo fundamentais
Se a solidão aparece fortemente associada a indicadores mais baixos de saúde mental, o Panorama também revela a importância das conexões sociais.Entre os participantes, 66,8% afirmaram ter encontrado amigos nas duas semanas anteriores à pesquisa. Nesse grupo, o ICASM chegou a 736,9 pontos, contra 539 pontos entre aqueles que não se encontraram com amigos.
A frequência desses encontros também se relaciona à experiência de solidão. Entre pessoas que não encontraram amigos, 54,6% relataram ter se sentido sozinhas. Já entre aquelas que encontraram amigos três vezes ou mais, o percentual caiu para 19,4%.
Os resultados reforçam a importância de fortalecer vínculos, redes de apoio e oportunidades de convivência. Em uma sociedade cada vez mais conectada digitalmente, o desafio não é apenas compreender como utilizamos novas tecnologias, mas também garantir que as pessoas tenham acesso a relações humanas e espaços de escuta e acolhimento.
Além de inteligência artificial e solidão, o Panorama da Saúde Mental 2026 apresenta dados sobre preocupações financeiras, sono, autoimagem, relações familiares, assédio, preconceito, apostas e saúde mental dos jovens. Para conhecer todos os achados e explorar os resultados completos da pesquisa, acesse panoramasaudemental.org.