Saúde mental das mulheres e o custo invisível que o Brasil ainda insiste em ignorar
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A sobrecarga do cuidado, a vulnerabilidade econômica e o adoecimento mental das mulheres se entrelaçam em um ciclo que ultrapassa a esfera individual e produz impactos sociais e econômicos para todo o país.
Março é lembrado pelo Dia Internacional da Mulher, um momento essencial para promover a igualdade de direitos, a valorização e o respeito, reconhecendo as conquistas históricas das mulheres e refletindo sobre os desafios que ainda precisam ser superados na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. E a saúde das mulheres deve estar entre as prioridades. Nesse contexto, é fundamental ampliar o debate para diferentes esferas da vida feminina — entre elas, a saúde mental, que atravessa de forma transversal a agenda de cuidados e direitos.
Mas, quando falamos de saúde mental, estamos tratando de algo que vai muito além de uma questão individual. A saúde emocional das mulheres está diretamente ligada ao sustento da família, à organização da vida cotidiana e à dinâmica das relações sociais. Além disso, influencia sua participação e permanência no mercado de trabalho, impactando a produtividade, a geração de renda e, consequentemente, o desenvolvimento econômico de todo o país.
Em 2025, o Brasil bateu um recorde ao registrar mais de 546 mil afastamentos do trabalho por saúde mental, em um contexto de falta de políticas efetivas de prevenção e cuidado nos ambientes de trabalho. Mas esse cenário tem um recorte claro de gênero: as mulheres respondem por mais de 60% das licenças.
Esse quadro dialoga com outros levantamentos recentes sobre a saúde mental das mulheres. O relatório Esgotadas, da Think Olga, aponta que 45% das mulheres brasileiras já receberam diagnóstico de ansiedade, depressão ou outro transtorno mental, e que a ansiedade faz parte do cotidiano de seis em cada dez mulheres no país.
Os dados não indicam uma fragilidade individual feminina, mas revelam um conjunto de condições sociais que expõem as mulheres, de forma contínua, a níveis mais elevados de sobrecarga, vulnerabilidades e pressão. A sobrecarga do trabalho doméstico e do cuidado, as limitadas oportunidades profissionais e educacionais, desigualdade salarial, a responsabilidade histórica pelo cuidado da casa e da família e a maior exposição a situações de violência e assédio compõem um cenário que impacta diretamente a saúde mental delas. Trata-se de um problema estrutural, que ultrapassa escolhas individuais e reflete desigualdade de gênero no Brasil, profundamente enraizada na sociedade brasileira.
Ansiedade em mulheres, outros transtornos e o custo invisível do cuidado
Essa desigualdade fica ainda mais evidente quando olhamos para quem assume o cuidado do dia a dia. No Brasil, essa responsabilidade está principalmente nas mãos das mulheres — especialmente nos lares monoparentais, onde, na maioria das vezes, são elas que respondem sozinhas pelo sustento e pela organização da rotina da casa.
Essa centralização de responsabilidades tem impacto financeiro e na saúde mental das mulheres, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e ausência de rede de apoio. Um estudo apoiado pela FAPESP mostra, por exemplo, que o cuidado com filhos que enfrentam transtornos mentais pode consumir até 50% da renda familiar mensal. Consultas, terapias, medicamentos e adaptações na rotina representam um peso financeiro expressivo.
Para além do custo financeiro direto do cuidado, ainda recaem sobre as mulheres custos indiretos da função do cuidar. Muitas mulheres precisam reduzir sua jornada de trabalho formal para cuidar, são preteridas em promoções de trabalho, ou abandonam o mercado de trabalho para se dedicarem exclusivamente ao tratamento e a rotina de cuidados. Esse cenário compromete não só a renda atual, mas também as perspectivas profissionais e financeiras no longo prazo.
Forma-se assim um ciclo de vulnerabilidade econômica que intensifica o sofrimento psíquico. Entre mulheres de faixas salariais mais baixas, os indicadores de saúde mental tendem a ser ainda mais críticos, reforçando a associação entre renda e saúde emocional.
Saúde mental das mulheres — o peso estrutural
Todo esse cenário ajuda a explicar por que elas concentram a maior parte dos afastamentos por transtornos mentais.
Dados do Panorama da Saúde Mental — pesquisa conduzida pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel — indicam que as mulheres apresentam, de forma consistente, indicadores de saúde mental inferiores aos dos homens. As diferenças são marcantes em dimensões como vitalidade, que mede níveis de energia e disposição, e autoconfiança, relacionada à percepção de capacidade e segurança pessoal.
O recorte etário torna o quadro da saúde mental das mulheres ainda mais preocupante: entre as mais jovens, a diferença em relação aos homens da mesma faixa é mais expressiva. O sofrimento psíquico começa cedo e pode acompanhar essas mulheres ao longo da trajetória educacional e profissional, impactando escolhas, permanência no mercado e renda futura.
Novamente, os dados não refletem fragilidade individual, mas evidenciam o impacto acumulado de desigualdades estruturais que permeiam gênero, renda e acesso a oportunidades.
Impacto bilionário na economia
Quando a saúde mental das mulheres é prejudicada, não apenas suas vidas e de suas famílias são afetadas, mas toda a economia nacional também sente os efeitos. Estimativas da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) indicam que afastamentos relacionados à saúde mental já custam 2,8% do Produto Interno Bruto brasileiro. O cálculo considera perda de produtividade, despesas previdenciárias e impactos indiretos sobre empresas e famílias.
Quando se observa que as mulheres concentram a maior parte desses afastamentos, o impacto ganha contornos ainda mais significativos. Interrupções de carreira, redução de participação no mercado de trabalho e menor progressão profissional se somam ao peso do cuidado não remunerado. O resultado é um ciclo em que a sobrecarga de cuidados, o adoecimento e as repercussões econômicas se alimentam entre si.
Agenda estratégica
Diante desse cenário de saúde mental das mulheres, a resposta não pode ser focada na responsabilização individual. Para além da ampliação do acesso ao cuidado para acolhimento e cuidado deste público, com algum tipo de transtorno de saúde mental, construir e fortalecer políticas públicas estruturais que visem garantir garantir os direitos trabalhistas das mulheres, trazendo a urgência de discutirmos mecanismos e equipamentos sociais para o reconhecimento do valor do trabalho não remunerado e formas de minimizar a sobrecarga feminina.
Ao enfrentar as desigualdades que moldam a experiência das mulheres no Brasil, o país não apenas promove justiça social, mas também fortalece sua capacidade produtiva e seu futuro coletivo.
No mês em que o mundo volta os olhos para as mulheres, os números reforçam um alerta: cuidar da saúde mental feminina não é apenas uma agenda de direitos. É uma agenda estratégica para o desenvolvimento do Brasil.